Documento enviado ao Congresso dos Estados Unidos critica atuação brasileira contra o PCC e o Comando Vermelho; Brasil, porém, não aparece na lista formal de 23 países classificados por Washington como grandes produtores ou rotas de drogas
ACM Notícias | 16 de setembro de 2026
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou nesta quarta-feira (16) o tom das críticas à política brasileira de combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas.
Em documento presidencial encaminhado ao Congresso americano, a administração Trump afirma que o Brasil não estaria adotando medidas suficientes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Segundo o texto, a atuação das duas organizações teria contribuído para transformar o Brasil em um centro relevante do fluxo global de cocaína.
A manifestação faz parte da determinação presidencial norte-americana referente ao ano fiscal de 2027. O documento cobra que o governo brasileiro adote medidas mais contundentes contra as duas facções, que foram classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
Brasil não está na lista formal dos 23 países
Um ponto importante para a compreensão da notícia é que o Brasil não aparece na relação formal divulgada pela Casa Branca com os 23 países identificados pelos Estados Unidos como grandes países de trânsito ou produtores de drogas ilícitas para o ano fiscal de 2027.
A relação inclui países como México, Colômbia, Peru, Venezuela, Bolívia, Equador, China e Afeganistão. O documento também esclarece que a inclusão nessa relação não significa, por si só, uma avaliação negativa sobre os esforços do governo do país no combate às drogas, já que fatores geográficos, comerciais e econômicos também são considerados.
Assim, a afirmação de que “Trump colocou o Brasil na lista dos países que não combatem o narcotráfico” seria imprecisa. O que ocorreu foi uma crítica direta à atuação brasileira contra o PCC e o Comando Vermelho dentro do documento presidencial.
Washington relaciona facções brasileiras ao tráfico internacional
Na avaliação apresentada pelo governo americano, PCC e Comando Vermelho representam uma ameaça que ultrapassa as fronteiras brasileiras. O documento afirma que as organizações precisam ser enfrentadas antes que ampliem sua atuação internacional.
A questão possui, de fato, dimensão internacional. Nos últimos dias, operações da Polícia Federal brasileira também demonstraram a existência de redes destinadas a transportar cocaína para outros países.
Na terça-feira (15), por exemplo, a PF deflagrou a Operação Anticaspa, em cooperação com autoridades alemãs, para desarticular uma organização que utilizava produtos comerciais para ocultar cocaína destinada à Europa. A investigação envolveu autoridades brasileiras, alemãs e portuguesas.
Dias antes, outra operação da Polícia Federal investigou uma organização responsável pelo envio de aproximadamente 150 quilos de cocaína para a Europa por meio de cargas aéreas.
Brasil também apresenta ações contra o crime organizado
As críticas americanas ocorrem em um momento em que órgãos brasileiros continuam realizando operações contra organizações criminosas e o tráfico internacional.
Nesta quarta-feira (16), uma operação coordenada pelas Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs) mobilizou 20 bases em 19 estados. Foram expedidos 173 mandados de busca e apreensão e 106 mandados de prisão, além de medidas patrimoniais superiores a R$ 508 milhões.
Na semana passada, outra operação coordenada pelo Ministério da Justiça resultou em 494 prisões, 923 quilos de drogas apreendidos e pedidos de bloqueio de aproximadamente R$ 409 milhões em bens e valores ligados aos investigados.
Os dados mostram, portanto, que existe uma atuação permanente das forças de segurança brasileiras contra o narcotráfico e o crime organizado, embora Washington considere insuficientes determinadas medidas, especialmente em relação às duas maiores facções citadas no documento.
Uma questão que vai além da disputa política
A manifestação de Trump ocorre em um momento de relações delicadas entre Brasil e Estados Unidos. Os dois governos também mantêm negociações e divergências em outras áreas, incluindo comércio e tarifas.
Em documento divulgado no fim de agosto, o governo brasileiro afirmou que permanece aberto ao diálogo com Washington e defendeu uma relação baseada no respeito à soberania nacional e na busca de acordos mutuamente benéficos.
Por isso, as declarações de Trump precisam ser analisadas em dois planos: o primeiro é a questão objetiva do avanço do crime organizado transnacional; o segundo é o contexto diplomático mais amplo entre os governos brasileiro e americano.
No campo da segurança pública, entretanto, o problema é concreto e ultrapassa fronteiras. A utilização de portos, aeroportos, rodovias e empresas aparentemente legais para transportar drogas demonstra que o combate ao narcotráfico depende cada vez mais de inteligência, cooperação internacional, rastreamento financeiro e integração entre as forças de segurança.
A declaração americana coloca novamente essa discussão no centro do debate e aumenta a pressão por respostas mais efetivas contra organizações criminosas brasileiras com atuação internacional.
ACM Notícias continuará acompanhando as manifestações dos governos brasileiro e americano e eventuais desdobramentos diplomáticos e de segurança relacionados ao caso.
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