Em entrevista, Cíntia Matos nega irregularidades, fala em injustiça, relata ataques misóginos e prepara reação judicial após perder mandato por decisão da Câmara
A cassação da prefeita de Reduto, Cíntia de Matos Mesquita, aprovada pela Câmara Municipal por 6 votos a 3, aprofundou a crise política no município da Zona da Mata mineira e abriu uma nova frente de disputa que agora deve migrar para o Judiciário. Em entrevista ao ProsaCast, da ACM TV, a ex-prefeita contestou a legalidade e a legitimidade da decisão, negou irregularidades administrativas e afirmou que foi alvo de perseguição política e ataques pessoais.
A declaração pública marca a primeira reação mais estruturada da ex-chefe do Executivo após a perda do mandato e antecipa a estratégia que deve ser adotada por sua defesa: sustentar que os atos questionados durante o processo político-administrativo estavam amparados em pareceres técnicos e que a cassação foi desproporcional.
A ex-prefeita afirma que recorrerá à Justiça.
O caso
A Câmara Municipal cassou o mandato de Cíntia Matos após analisar acusações relacionadas, segundo a própria entrevistada, a procedimentos administrativos envolvendo transporte escolar, contratações emergenciais e uso de veículo da Defesa Civil. No ProsaCast, ela rejeitou todas as imputações e disse que não houve ilegalidade nem prejuízo aos cofres públicos.
“Não há nenhuma irregularidade”, afirmou. Segundo ela, “todas as licitações estão fundamentadas dentro da lei” e os atos praticados por sua gestão poderão ser defendidos documentalmente.
Cíntia também insistiu em um ponto central de sua narrativa política: o fato de sua saída do cargo ter ocorrido por decisão da Câmara, e não por ordem judicial. “Eu não fui caçada pela Justiça”, disse.
A distinção é relevante porque a defesa deve concentrar esforços em demonstrar eventual vício no processo legislativo, ausência de materialidade suficiente ou desproporção entre os fatos apontados e a penalidade máxima aplicada.
Disputa entre técnica e política
Ao longo da entrevista, Cíntia descreveu um início de mandato marcado, segundo ela, por dificuldades estruturais severas. Disse ter assumido uma prefeitura com entraves em contas, certidões, convênios, frota e serviços essenciais, o que teria exigido decisões rápidas para manter o funcionamento da máquina pública.
Nesse contexto, apresentou sua gestão como um governo de reconstrução administrativa, pressionado por urgências em áreas como saúde, transporte escolar, estradas e atendimento à população.
A linha de defesa construída publicamente é a de que decisões contestadas no processo de cassação precisam ser compreendidas à luz de um cenário emergencial e não como atos dolosos ou lesivos ao erário.
Ao mesmo tempo, a ex-prefeita deixou claro que vê o episódio também sob a ótica da correlação de forças no Legislativo. Ela reconheceu que não tinha maioria na Câmara e sugeriu que sua forma de governar contrariou práticas tradicionais da política local.
“Talvez eu não fui fazer o diálogo que o sistema quer”, disse.
A frase resume, de maneira indireta, a interpretação que pretende consolidar: a de que a cassação foi menos consequência de ilícitos comprovados e mais resultado de um ambiente político hostil.
Base frágil no Legislativo
O placar da votação — seis votos favoráveis à cassação e três contrários — expôs a fragilidade política do Executivo diante do Legislativo. Em municípios pequenos, onde relações institucionais e pessoais frequentemente se sobrepõem, a ausência de base parlamentar sólida costuma ampliar o risco de conflitos agudos entre os poderes.
Na entrevista, Cíntia afirmou que mantinha diálogo com vereadores e que recebia parlamentares em seu gabinete para tratar de projetos e demandas da administração. Ainda assim, a ruptura se consumou.
A crise revela um traço recorrente da política municipal brasileira: quando a sustentação política do Executivo entra em colapso, conflitos administrativos podem rapidamente ganhar contorno institucional mais grave, inclusive com abertura de processos que culminam em afastamento ou cassação.
Ataques pessoais e violência política
O trecho mais sensível da entrevista não tratou diretamente de contratos, licitações ou veículos oficiais. A ex-prefeita relatou ter sido alvo de ataques de cunho misógino, inclusive comentários sobre o fato de não ter filhos.
Sem citar nomes, afirmou que recebeu ofensas que extrapolaram o debate político e atingiram sua vida íntima e sua condição de mulher. Disse ter ficado “perplexa” com uma mensagem em que, segundo seu relato, um homem teria associado sua trajetória pessoal ao fato de não ser mãe biológica.
A declaração introduz no caso um componente que vai além da disputa institucional: o da violência política de gênero. Nos últimos anos, esse tema ganhou relevância no debate público e jurídico, sobretudo diante do crescimento de episódios em que mulheres em cargos de poder relatam ataques dirigidos menos a seus atos administrativos e mais à sua identidade, aparência, vida pessoal ou maternidade.
Ao trazer esse aspecto para o centro da entrevista, Cíntia amplia sua defesa pública e procura associar sua cassação a um ambiente de hostilidade mais amplo.
Trajetória e capital político
Parte significativa da entrevista foi dedicada à construção de uma biografia política e profissional. Cíntia relembrou a infância em Reduto, o trabalho da família na zona rural, a atuação em cooperativas e projetos ligados à cafeicultura e sua inserção em iniciativas voltadas para mulheres do agro.
Também citou o reconhecimento obtido fora da política local, incluindo a inclusão de seu nome, em 2021, entre mulheres influentes do agronegócio em lista divulgada pela Forbes.
A referência não é casual. Em momentos de crise política, a evocação de trajetória pessoal e reputação profissional costuma funcionar como instrumento de recomposição de imagem pública. Ao reafirmar sua origem, sua experiência técnica e o reconhecimento externo, a ex-prefeita tenta se diferenciar da imagem de agente político encurralado por suspeitas administrativas.
O que vem pela frente
A partir de agora, a crise entra em nova etapa. Com a saída de Cíntia, o vice-prefeito Edvan assumiu o comando do Executivo municipal. Paralelamente, a defesa da ex-prefeita deve formalizar medidas judiciais para tentar anular ou suspender os efeitos da cassação.
Os próximos passos dependem da avaliação dos advogados sobre a documentação do caso, o rito adotado pela Câmara e os fundamentos utilizados para justificar a perda do mandato.
No plano jurídico, a discussão tende a se concentrar em alguns pontos:
- eventual violação ao contraditório e à ampla defesa;
- suficiência ou insuficiência das provas;
- legalidade dos atos administrativos questionados;
- existência, ou não, de dano ao erário;
- proporcionalidade da sanção política imposta.
Se a Justiça entender que houve falhas relevantes no processo ou ausência de base jurídica adequada, a decisão da Câmara poderá ser revista. Se considerar que o rito foi regular e que os fundamentos são suficientes, a cassação tende a ser mantida.
Crise local, sinal nacional
Embora circunscrito a um município de pequeno porte, o caso de Reduto reflete tensões mais amplas da política brasileira: a relação instável entre Executivo e Legislativo, a judicialização de conflitos políticos, a força das narrativas públicas e o aumento das denúncias de violência política contra mulheres.
A entrevista de Cíntia Matos ao ProsaCast cumpre, nesse sentido, dupla função. Serve como peça de defesa e como ato de sobrevivência política. Ao negar irregularidades, denunciar ataques e prometer reação judicial, a ex-prefeita busca preservar não apenas o mandato que perdeu, mas o capital político de que ainda dispõe.
Em Reduto, a votação da Câmara encerrou uma etapa. O desfecho do caso, no entanto, ainda está em aberto.
ASSISTA:
Por Aloisio Campos
Nota editorial
Esta matéria foi produzida com base nas declarações dadas pela ex-prefeita Cíntia Matos em entrevista pública ao Prosa Cast, da ACM TV. As irregularidades mencionadas no processo de cassação são tratadas, nesta reportagem, como alegações discutidas no âmbito político-administrativo, uma vez que a ex-prefeita nega as acusações e informa que adotará medidas judiciais para contestar a decisão.


