No ProsaCast da ACM TV, deputado estadual revisita trajetória pessoal, empresarial e pública, e defende mandato ancorado em obras, saúde, educação e proximidade com a região

Foto: João Magalhães, Aloisio Campos e Ronaldo Martinho
Há políticos que constroem a própria imagem no discurso. Outros preferem sustentá-la na memória, nas relações e nas entregas. No bate-papo concedido ao ProsaCast, da ACM TV, o deputado estadual João Magalhães apresentou justamente essa segunda face: a de um homem público que se descreve como fruto da vida simples do interior, da tradição familiar, do empreendedorismo no café e de uma atuação política marcada pela presença constante nas bases.
Natural de Matipó, João Magalhães abriu a conversa retomando lembranças de uma infância interiorana, muito distante da rotina digital das novas gerações. Falou de brincadeiras de rua, de uma vida sem telas, da convivência familiar e da formação em uma casa com seis irmãos. Mais tarde, sairia cedo para estudar, primeiro em Juiz de Fora, depois em Governador Valadares, onde ingressou em Engenharia Civil. A trajetória acadêmica, porém, foi interrompida por uma tragédia familiar: a morte prematura do pai, aos 48 anos, o levou de volta a Matipó para ajudar os irmãos nos negócios da família.
Esse retorno ao ponto de origem, longe de representar recuo, acabaria por moldar o perfil de liderança que mais tarde se consolidaria na política. Antes do parlamento, houve a experiência empresarial. E não uma experiência qualquer.
O café como escola de gestão e visão de futuro
Um dos momentos mais emblemáticos da entrevista foi a recordação da criação do armazém que se tornou referência em Manhuaçu e região. Ao rememorar a decisão da família de investir em um grande complexo de beneficiamento e armazenamento, João Magalhães revelou uma combinação de ousadia e leitura estratégica de mercado.
Naquele período, Manhuaçu já se consolidava como centro comercial regional, com forte protagonismo no setor cafeeiro. A família, que já atuava no ramo, percebeu a necessidade de expansão e decidiu construir um armazém de grande porte em uma área então desafiadora, tanto pela topografia quanto pela logística. O terreno precisou ser profundamente adaptado para receber uma estrutura que, à época, já impressionava pelo porte.
O investimento resultou em um armazém com mais de 6 mil metros quadrados, capaz de movimentar mais de um milhão de sacas de café, atendendo exportadores de toda a região. A operação, segundo o deputado, já vinha sendo impulsionada pela exportação direta para mercados como França, Itália e Alemanha. O empreendimento acabaria mais tarde negociado com o grupo ligado ao Café Três Corações, mas permaneceu como símbolo de uma época em que o café regional ganhava musculatura industrial e comercial.
O nome carrega a marca da ancestralidade: uma homenagem ao avô e ao pai, ambos Joaquim, conhecidos na família e na comunidade por apelidos ligados ao nome. A explicação, simples e afetiva, ajuda a entender o tom de toda a entrevista: João Magalhães fala de política, mas sempre a partir da história concreta das pessoas, das famílias e dos lugares.
A política que chegou quase por convocação
Ao narrar sua entrada na vida pública, João Magalhães deixou claro que a política não surgiu como projeto pessoal de juventude, mas como desdobramento de uma tradição familiar e de uma circunstância eleitoral. Sua família já possuía forte presença na vida pública regional, com parentes que exerceram mandatos de prefeito e vice-prefeito em diferentes municípios.
A virada se deu em 1994, quando, faltando cerca de 90 dias para a eleição, ele foi chamado a assumir uma candidatura em substituição ao irmão Pedro, que estava fortemente envolvido na coordenação de campanha de Hélio Costa ao governo de Minas. João aceitou o desafio, foi às urnas, obteve 33.086 votos e ficou na condição de segundo suplente.
A vaga efetiva veio em seguida, em decorrência de movimentações parlamentares e licenças de outros deputados. Em 1996, assumiu o mandato e, dali em diante, consolidou uma carreira longeva, com sucessivas reeleições. Passou pelo PP, ingressou no então PMDB/MDB, legenda à qual permaneceu ligado por cerca de 30 anos, e recentemente migrou para o PSD, em movimento que ele atribui às novas dinâmicas de composição partidária e à dificuldade de montagem de chapas competitivas nos partidos tradicionais.
Na entrevista, o parlamentar tratou com franqueza o tema da mudança de sigla. Demonstrou apego histórico ao MDB, mas reconheceu que a lógica eleitoral atual vem empurrando quadros políticos para rearranjos pragmáticos, sobretudo diante das exigências das chapas proporcionais.
Do impacto inicial à adaptação no Parlamento
Com uma sinceridade rara em entrevistas políticas, João Magalhães admitiu que chegou à Câmara dos Deputados sem experiência parlamentar ou passagem por cargos públicos anteriores. Nunca havia sido vereador, deputado estadual ou gestor de governo. Segundo ele, o primeiro aprendizado foi o da humildade: observar, ouvir e pedir orientação aos mais experientes.
A comparação que fez é reveladora: disse que o primeiro ano de mandato é como os primeiros passos de um bebê, fase em que se aprende a andar antes de correr. O relato, mais do que uma confissão de inexperiência inicial, ajuda a compor a imagem de um político que busca se apresentar como alguém moldado pela prática, não pela retórica.
Essa adaptação, segundo ele, foi rápida. Em pouco tempo, transformou a visibilidade do mandato em musculatura eleitoral, dobrando a votação na eleição seguinte. O crescimento, em sua narrativa, decorre de uma combinação entre trabalho, presença e capacidade de articulação.
Mandato associado a obras e repasses para a região
Se houve um eixo dominante em toda a conversa, foi o da defesa de uma política orientada por resultados concretos. João Magalhães foi instado a citar ações para Manhuaçu e região, e respondeu com exemplos bastante específicos.
Entre eles, destacou uma obra de grande relevância estrutural e pouco lembrada pela população na área abaixo do batalhão, em Manhuaçu, a realização de uma intervenção de contenção decisiva para evitar o comprometimento da rodovia e riscos às residências próximas. Na visão dele, é uma daquelas obras silenciosas que raramente ganham manchetes, mas que têm impacto profundo na segurança urbana e viária.
O parlamentar também reforçou sua ligação histórica com o Hospital César Leite, instituição que descreveu como central para o atendimento de média e alta complexidade de toda a região. Na entrevista, foi taxativo ao afirmar que, sem emendas parlamentares, hospitais dessa natureza enfrentam sério risco de colapso financeiro, dada a baixa remuneração dos procedimentos pagos pelo SUS.
Nesse ponto, a fala de João Magalhães ultrapassa o terreno local e toca uma discussão estrutural do sistema de saúde brasileiro: a dependência crescente de transferências parlamentares para sustentação de hospitais filantrópicos e regionais. Ao mencionar aportes para custeio, compra de equipamentos e apoio permanente à instituição, o deputado busca posicionar-se como um agente de sustentação de serviços essenciais, especialmente onde o financiamento ordinário não dá conta.
Ele mencionou, por exemplo, a chegada de uma nova máquina de hemodinâmica, equipamento fundamental para exames e procedimentos cardiovasculares, e ressaltou que se trata de tecnologia de ponta. Também comentou a obra do anexo do hospital, frequentemente alvo de críticas por sua demora. Segundo explicou, o entrave estaria em uma disputa judicial envolvendo acesso a terreno vizinho pertencente à Unimed, o que teria paralisado o avanço físico da construção, apesar do volume expressivo de recursos já destinados.
O projeto, se concluído, deve ampliar de forma significativa a capacidade de atendimento, com previsão de áreas para oncologia, hemodiálise, administração hospitalar e maternidade.
Saúde regional: uma rede de apoio além de Manhuaçu
O deputado fez questão de ampliar o foco para além do César Leite, citando apoio a hospitais de Manhumirim, Carangola, Divino, Espera Feliz, Ponte Nova e outras localidades de sua base. A mensagem central é clara: a rede hospitalar regional vive situação semelhante, pressionada por custos crescentes e receitas insuficientes.
Ao tratar do tema, João Magalhães assume uma postura de alerta. Sustenta que, sem a continuidade de emendas, hospitais importantes podem reduzir serviços ou até fechar as portas. É uma fala politicamente eficaz, porque conecta o mandato a uma necessidade imediata e sensível da população: a manutenção do atendimento de saúde.
Educação: das escolas degradadas ao discurso da transformação
Outro bloco forte da entrevista foi dedicado à educação pública estadual, área em que João Magalhães afirmou ter intensificado sua atuação nos últimos anos. O ponto de partida, segundo relatou, foi uma visita à escola Ana Mendes, em São Pedro do Avaí, onde o cenário de precariedade o teria impactado profundamente.
A partir dali, diz ter assumido como prioridade a busca de recursos para reformas escolares, num contexto em que o Estado, à época, tinha baixa capacidade de investimento. A entrevista lista uma sequência de unidades visitadas, diagnosticadas e, posteriormente, contempladas com intervenções.
A narrativa é construída com imagens fortes: salas escuras, falta de ventilação, vidros quebrados, telhados comprometidos, instalações elétricas expostas, cozinhas fora de padrão e escolas com décadas sem reformas estruturais. Ao detalhar esses quadros e associá-los a soluções concretas — pintura, troca de telhado, requalificação elétrica, banheiros, cozinhas, quadras cobertas e até climatização —, o deputado reforça sua marca de mandato voltado à infraestrutura básica.
No caso de Manhuaçu, afirmou que as 17 escolas estaduais do município receberam recursos e melhorias, e projetou que, até o fim do ano, todas deverão contar com quadra coberta. Também destacou o novo desafio de instalar ar-condicionado em salas de aula, apontando as mudanças climáticas e o aumento do calor como fatores que exigem adaptação dos espaços escolares.
Mais do que uma pauta administrativa, trata-se de um tema politicamente poderoso: a escola pública é um símbolo visível, frequente e emocionalmente presente no cotidiano das famílias. Investir ali significa também comunicar cuidado com o futuro.
Assistência social e entidades: apoio contínuo
João Magalhães também mencionou repasses e apoio a instituições como a Apae e a Polícia Mirim, esta última elogiada por seu trabalho social e formativo. Embora tenha reconhecido mudanças nas regras de execução das emendas, especialmente após decisões judiciais e novas sistemáticas administrativas, reiterou o compromisso de continuar ajudando entidades com atuação continuada e relevância social.
Esse trecho da entrevista ajuda a entender um traço recorrente do mandato: a pulverização do apoio em frentes muito próximas da vida cotidiana das cidades — saúde, escola, assistência, equipamentos comunitários e entidades locais.
Da Câmara à Assembleia: a política mais perto de casa
A passagem de deputado federal para deputado estadual foi tratada por João Magalhães com um argumento humano e direto: qualidade de vida. Após cerca de 20 anos de ponte aérea para Brasília, ele diz ter percebido o desgaste da rotina e optado por um mandato em Belo Horizonte, que lhe permite dormir em casa, estar mais próximo da família e manter contato cotidiano com prefeitos, lideranças e eleitores.
A fala revela uma dimensão importante da política mineira: para muitos parlamentares, a capilaridade regional é mais decisiva do que o brilho institucional de Brasília. Nesse sentido, a Assembleia aparece, no discurso do deputado, como um espaço de maior proximidade, maior capacidade de interlocução local e maior aderência às demandas concretas das bases.
Líder do governo: articulação, pressão e bastidor permanente
No atual mandato, João Magalhães ocupa uma função estratégica: a de líder do governo na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Ao descrever o posto, lançou mão de uma expressão popular e bem-humorada: disse que o líder vira uma espécie de “babá” de 76 deputados.
A expressão, embora coloquial, resume bem a natureza do cargo: mediar pressões, organizar agendas, orientar votações, dialogar com secretarias, acompanhar comissões, audiências públicas e articulações de plenário. Segundo ele, trata-se de um trabalho de dedicação integral, em que o telefone não para e a cobrança é permanente.
Essa dimensão da entrevista é relevante porque desloca João Magalhães do papel de deputado apenas municipalista para o de articulador central do governo estadual no Legislativo. Ao falar da função, ele busca demonstrar experiência, trânsito político e capacidade de negociação.
Copasa, dívida de Minas e o debate sobre gestão
No campo mais amplo da política estadual, a entrevista avançou sobre temas de maior complexidade, como a privatização da Copasa e a situação fiscal de Minas Gerais. João Magalhães afirmou que o processo segue em preparação, com modelagem voltada para leilão na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, ainda sob acompanhamento dos órgãos de controle.
Também abordou a dívida do Estado e fez uma leitura do contraste entre os governos Fernando Pimentel e Romeu Zema.
Ao mencionar o programa de refinanciamento da dívida e a necessidade de contrapartidas como venda de ativos e privatizações, João Magalhães se posiciona como defensor de uma agenda de ajuste e reorganização financeira do Estado, ainda que isso envolva medidas politicamente sensíveis.
Comunicação, rádio e presença pública
Quase ao fim da conversa, surgiu outra faceta menos conhecida do parlamentar: sua ligação com a comunicação. João Magalhães relembrou a experiência com a Rádio Catuaí, posteriormente transformada na Rádio Caparaó FM após a migração do AM para o FM. Ao comentar o tema, mostrou familiaridade com as mudanças tecnológicas e com o papel do rádio regional como veículo de proximidade e influência.
O assunto não é lateral. Em regiões interioranas, comunicação e política frequentemente caminham lado a lado, seja na formação de opinião, seja na manutenção de vínculos simbólicos com a população. Ao tratar do tema com entusiasmo, o deputado também reafirma seu perfil de homem público conectado aos instrumentos tradicionais de presença regional.
O retrato que fica
No conjunto, a participação de João Magalhães no ProsaCast constrói um retrato bastante nítido: o de um político experiente, afeito à conversa direta, que prefere narrar a própria trajetória por meio de marcos concretos — infância no interior, empreendedorismo cafeeiro, entrada inesperada na política, longevidade eleitoral, defesa de hospitais, reformas de escolas, apoio a entidades e articulação no centro do poder estadual.
É uma entrevista que não aposta em grandes teses ideológicas. Seu foco está no pragmatismo, na entrega, na obra, no recurso viabilizado, no equipamento comprado, no prédio reformado, no hospital mantido. Para seus apoiadores, essa é precisamente sua força: a política como capacidade de resolver. Para seus críticos, pode haver aí o retrato de um modelo tradicional, fortemente dependente de emendas e redes de influência. Mas é inegável que João Magalhães domina esse idioma e se move com naturalidade nele.
Ao final do bate-papo, o que se revela é menos um parlamentar de frases de efeito e mais um operador político de longa travessia, moldado pela lógica do interior mineiro: proximidade, memória, lealdade regional e compromisso com demandas palpáveis.
Em tempos de hiperpolarização, João Magalhães parece apostar em outro caminho — o da política do contato, da presença e da entrega. E foi exatamente isso que deixou registrado na conversa com a ACM TV.
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Por Aloisio Campos – ACM Notícias

