Endividamento recorde e mais de 83 milhões de inadimplentes
Com juros elevados, cartão de crédito caro e custo de vida pesando no bolso, mais de oito em cada dez famílias brasileiras afirmam ter dívidas, segundo levantamento da CNC. Inadimplência também atinge marca histórica, com mais de 83 milhões de pessoas negativadas no país.
O endividamento das famílias brasileiras atingiu em 2026 o maior patamar da série histórica. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic, divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — CNC, mostram que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio deste ano.
O índice representa um novo recorde desde o início da pesquisa, em 2010. Em abril, o percentual era de 80,9%. Já em maio de 2025, estava em 78,2%. Na prática, o levantamento indica que oito em cada dez famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, como cartão de crédito, empréstimo pessoal, carnê, financiamento, cheque especial ou prestações em aberto.
Cartão de crédito lidera as dívidas
O principal vilão do endividamento continua sendo o cartão de crédito. Segundo a CNC, ele foi citado por 84,6% das famílias endividadas em maio. Em seguida aparecem os carnês, com 16,1%, e o crédito pessoal, com 13,1%.
O dado preocupa porque o cartão de crédito, especialmente quando usado no rotativo ou no parcelamento da fatura, costuma ter uma das taxas de juros mais altas do mercado. Para muitas famílias, ele deixou de ser apenas uma ferramenta de consumo e passou a ser usado como complemento de renda para pagar supermercado, farmácia, combustível e contas básicas.
Esse movimento acende um alerta: quando o orçamento doméstico já está apertado, qualquer atraso pode virar uma bola de neve.
Mais de 83 milhões de brasileiros estão inadimplentes
Além do crescimento do endividamento, a inadimplência também segue em patamar elevado. Levantamento da Serasa aponta que o Brasil ultrapassou a marca de 83 milhões de pessoas inadimplentes em 2026.
Em abril, eram 83,3 milhões de brasileiros negativados, o equivalente a 50,81% da população adulta do país. O total de dívidas negativadas passava de 342 milhões, somando mais de R$ 568 bilhões em débitos. O valor médio devido por pessoa era de aproximadamente R$ 6,8 mil.
Dados referentes a maio indicam nova alta, chegando a cerca de 83,5 milhões de inadimplentes e mais de R$ 574 bilhões em dívidas atrasadas.
Principais causas do endividamento
Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar o avanço das dívidas no país:
- Juros elevados, que encarecem empréstimos, financiamentos e cartão de crédito;
- Custo de vida alto, especialmente em alimentação, energia, aluguel e transporte;
- Uso recorrente do cartão de crédito para despesas do dia a dia;
- Perda de renda ou desemprego em parte das famílias;
- Falta de educação financeira;
- Avanço das apostas online, que têm comprometido o orçamento de muitos brasileiros;
- Renegociações que aliviam no curto prazo, mas nem sempre resolvem o problema estrutural.
Segundo a Serasa, bancos, cartões de crédito e financeiras seguem entre os principais segmentos responsáveis pelas dívidas negativadas. Também pesam no orçamento as contas básicas, como água, luz e gás.
Famílias mais pobres sentem mais o impacto
Embora o endividamento atinja diferentes faixas de renda, o problema é mais grave entre as famílias de menor poder aquisitivo. Para quem ganha menos, uma conta atrasada ou uma compra parcelada pode representar grande parte da renda mensal.
Nesse grupo, o cartão de crédito muitas vezes é usado para cobrir despesas essenciais. O problema é que, quando a fatura não é paga integralmente, os juros transformam rapidamente uma dívida pequena em uma obrigação difícil de quitar.
Governo aposta em renegociação, mas problema é estrutural
Em meio ao avanço da inadimplência, o governo federal relançou programas de renegociação de dívidas, como o Novo Desenrola Brasil, com descontos para consumidores negativados.
As iniciativas podem ajudar famílias a limpar o nome e reorganizar parte das finanças. No entanto, economistas alertam que a renegociação, sozinha, não resolve o problema de fundo. Sem aumento real da renda, controle dos gastos públicos, redução sustentável dos juros e melhora no ambiente econômico, muitas famílias acabam voltando ao ciclo do endividamento.
Risco para o comércio e para a economia
O alto endividamento também afeta diretamente o comércio. Com grande parte da renda comprometida com dívidas, juros e contas atrasadas, o consumidor reduz compras, adia planos e corta gastos.
Isso impacta principalmente setores como vestuário, eletrodomésticos, móveis, lazer e serviços. Em cidades do interior, onde a economia depende fortemente do comércio local, o endividamento das famílias pode reduzir o movimento nas lojas e afetar pequenos empresários.
Números do endividamento em 2026
- 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio, segundo a CNC;
- Foi o maior índice da série histórica da Peic, iniciada em 2010;
- Em abril, o percentual era de 80,9%;
- Em maio de 2025, era de 78,2%;
- 84,6% dos endividados tinham dívidas no cartão de crédito;
- Mais de 83 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em 2026, segundo a Serasa;
- O total de dívidas atrasadas ultrapassava R$ 568 bilhões;
- Cerca de metade da população adulta brasileira estava negativada.
Cenário exige atenção
O recorde de endividamento mostra que o orçamento das famílias brasileiras chegou ao limite. A combinação de juros altos, renda apertada e uso excessivo do crédito cria um ambiente de risco para consumidores, comércio e economia.
Para milhões de brasileiros, a prioridade em 2026 deixou de ser consumir e passou a ser sobreviver ao mês sem atrasar contas. O desafio, agora, é impedir que o endividamento recorde se transforme em uma crise ainda maior de inadimplência e perda de poder de compra.
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Redação
Fontes: CNC/Peic, Serasa, Senado Notícias, Valor Econômico e G1.



