A direita toma o Congresso: Flávio lidera, bolsonaristas varrem o Senado e Lula amarga derrota histórica no primeiro turno

por Aloísio Moreira

Com 47,04% dos votos válidos contra 45,15% do petista, senador do PL chega ao segundo turno na frente — algo que não acontecia com um desafiante desde a redemocratização; direita conquista SP, MG e os três estados do Sul já no 1º turno e elege a maior bancada da história do Senado; abstenção bate recorde de 21,8%

Por Redação ACM Notícias Publicado em 05/10/2026


O Brasil que sai das urnas neste domingo (4) é um país que virou à direita. O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 na frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e coloca Flávio como favorito para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

O resultado contrariou a maior parte das pesquisas de opinião, que apontavam Lula à frente ao longo de toda a campanha. Nos últimos dias, a estratégia de Flávio — focada no voto útil e na consolidação do eleitorado antipetista — se mostrou eficaz. O próprio Lula reconheceu a surpresa em seu primeiro pronunciamento após a apuração:

“O resultado é muitas vezes inesperado. Confesso que estava convencido de que iria ganhar no primeiro turno.”

Flávio, por sua vez, foi enfático:

“É o fim da era do PT. Está decretado, é o fim da era do PT.”


Os números que explicam a virada

Os dados do primeiro turno revelam um quadro histórico:

  • Lula teve menos votos em 2026 como presidente do que em 2022 como desafiante. Na eleição passada, passou ao segundo turno com 48,43% dos válidos — três pontos percentuais a mais do que agora. Em números absolutos, o petista registrou quase 4 milhões de votos a menos em relação a quatro anos atrás.
  • Flávio superou o pai. Em 2022, Jair Bolsonaro teve 43,20% dos votos válidos — quase quatro pontos a menos que o filho obteve neste domingo.
  • A abstenção bateu recorde: 21,8%, o mais alto índice já registrado em um primeiro turno presidencial.
  • A margem é a mais estreita da história. Desde 1989, quem terminou o primeiro turno na frente venceu todos os sete segundos turnos presidenciais realizados. Antes desta eleição, apenas uma vez um presidente em exercício havia terminado a primeira etapa atrás: em 2022, quando Bolsonaro perdeu para Lula.

A “avalanche bolsonarista”: a direita conquista os maiores estados

O avanço da direita não se limitou à disputa presidencial. O bolsonarismo venceu já no primeiro turno os governos dos dois maiores colégios eleitorais do país — São Paulo e Minas Gerais — e dos três estados da Região Sul. No Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL) pode vencer também no primeiro turno, a depender do desfecho do caso de Garotinho, que concorreu com o registro negado pelo TRE-RJ e recorreu ao TSE. Sem os votos de Garotinho — anulados até o julgamento —, Ruas ultrapassa a marca de 50%.

Em Minas Gerais, o sinal é particularmente expressivo

Desde 1989, quem venceu no estado venceu a eleição presidencial. Em 2022, Lula ganhou em Minas no primeiro turno por 4,7 pontos. Agora, perde por 4,9. Desta vez, Minas está mais à direita do que o país.

Para o comentarista Joel Pinheiro, da GloboNews, o resultado configura uma “avalanche bolsonarista”. Segundo ele, a combinação de fatores — eleitorado conservador, questões econômicas, desgaste do governo Lula e, acima de tudo, a revolta contra o Supremo Tribunal Federal — explica o desempenho histórico da direita nas urnas.


Um Senado de direita: a maior bancada bolsonarista da história

A renovação do Senado Federal selou a vitória da direita no Legislativo. Das 54 vagas em disputa, PL e Novo ficaram com 22. Os partidos do Centrão — MDB, PP, União Brasil, PSD e Republicanos — elegeram 17. O PT e aliados da base governista fizeram apenas 11. PSDB e Podemos completam a conta, com dois senadores cada.

Os números do novo Senado

BlocoSenadores
Direita (PL + Novo)32
Centrão30
PT e aliados15

O PL elegeu 19 senadores — o maior número entre os partidos — e ficou com as duas vagas em cinco unidades da federação: Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina. Entre os eleitos estão Michelle Bolsonaro (DF) e Carlos Bolsonaro (SC). A partir de fevereiro de 2027, o PL terá a maior bancada da Casa: 28 dos 81 senadores.

O Novo elegeu três: Deltan Dallagnol (PR), Marcel van Hattem (RS) e Lahesio Bonfim (MA). A candidatura de Dallagnol ainda será julgada pela Justiça Eleitoral.

A troca de nomes foi ampla: dos 54 senadores cujo mandato termina em janeiro de 2027, 40 das 54 cadeiras terão ocupantes novos.

O que muda com o novo Senado

A nova configuração abre espaço para a tramitação de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, uma bandeira histórica do PL. Por decisão do ministro Gilmar Mendes, desde dezembro de 2025 são necessários 54 votos no Senado para aprovar um pedido de impeachment — antes, eram necessários 41, maioria simples. Mesmo com a mudança, o número de votos necessários ficou mais próximo de ser alcançado pela bancada de direita.

Para chegar aos 41 votos da maioria absoluta, PL e Novo precisarão de nove senadores de fora da direita — um número que, com o deslocamento de poder para a direita, pode ser alcançado com o apoio de parte do Centrão.


A bancada do caso Master: Vorcaro sobrevive, Ciro cai

Os efeitos da crise do banco Master foram limitados nas urnas. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Jaques Wagner (PT-BA), foram reeleitos.

Apenas o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o mais próximo de Vorcaro, foi derrotado.

Os números da investigação

  • Flávio Bolsonaro: O caso do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, gerou desgaste, mas não decidiu a eleição presidencial.
  • Hugo Motta: a Polícia Federal aponta que o Master emprestou R$ 22 milhões a uma empresa da cunhada do deputado, em março de 2024. O dinheiro foi usado na compra de uma área de mais de 400 hectares em João Pessoa por R$ 45 milhões. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam Motta tratando da operação diretamente com o banqueiro. A PF também encontrou registros de uma viagem de Motta e Ciro a Lisboa, em junho de 2024, em avião cedido por Vorcaro e com hospedagem paga por ele.
  • Jaques Wagner: reeleito em segundo lugar para o Senado pela Bahia, com 27% dos votos válidos. A PF investiga se recebeu vantagens ligadas ao banco — apartamento em Salvador, viagens em jatinhos e ingressos para show em Los Angeles em 2023.
  • Ciro Nogueira: derrotado nas urnas. A PF afirma que atuou em favor de interesses privados de Vorcaro em troca de propina de R$ 300 mil por mês — valor que subiu para R$ 500 mil. Um dos episódios investigados é a chamada “emenda Master”, que elevava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Segundo a PF, a minuta foi redigida pela assessoria do banco e entregue na casa do senador.

Derrota de Alcolumbre no Amapá

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não disputou a reeleição — mas saiu derrotado no Amapá. Seus candidatos ao governo e ao Senado não se elegeram. O governador Clécio Luís (União Brasil), aliado de Alcolumbre, foi derrotado pelo ex-prefeito de Macapá Dr. Furlan (PSD), com 62,40% dos votos válidos contra 37,32% do candidato governista.

As duas vagas ao Senado ficaram com Rayssa Furlan (Podemos) e Lucas Barreto (PSD) — ambos opositores de Alcolumbre. Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo no Congresso, ficou de fora.

É a segunda vez que Dr. Furlan derrota o grupo de Alcolumbre. Em 2020, venceu a disputa pela prefeitura de Macapá contra Josiel Alcolumbre, irmão do senador.

Em nota, Alcolumbre disse que recebe “com respeito o resultado das urnas e a decisão soberana da maioria do povo do Amapá”.


O caminho até 25 de outubro

Para chegar aos 50% dos votos válidos no segundo turno, Flávio precisa de pouco mais de um terço dos votos dados aos demais candidatos, mantida a abstenção. Lula precisa de quase dois terços, ou de eleitores que ficaram em casa.

A matemática eleitoral favorece Flávio. O voto de Ronaldo Caiado (PSD), que ficou em terceiro lugar com 2,2% dos válidos, é antipetista e conservador — deve migrar quase inteiro para o candidato do PL. O de Renan Santos (Missão), também com 2,2%, é antipetista, mas o MBL — que o lançou — fez da crítica à família Bolsonaro uma marca. Parte desse voto tende ao nulo ou à abstenção. O de Augusto Cury (Avante), com 2,9%, é o menos ideológico e tende a se dividir.

Os riscos de cada lado

Para Flávio, o principal risco é a euforia da bancada. O bolsonarismo vive mobilizado e age diuturnamente nas redes e nas ruas — está mais exposto a erros. Ele precisa manter o campo unido e atravessar três semanas sem deslizes.

Para Lula, as armas são a caneta do governo e o antibolsonarismo. O reajuste do Bolsa Família, a MP que proibiu as bets e a PEC que acaba com a escala 6×1 — que entra na pauta do Senado na terça-feira (6) — são instrumentos à disposição do presidente. O voto antibolsonarista, que nasce do medo e não da esperança em Lula, está concentrado no Sudeste — provavelmente o alvo principal da campanha petista no segundo turno.

As canetas do Judiciário

As decisões dos ministros do Supremo e do TSE não podem ser negligenciadas. Flávio Dino, por exemplo, relata o inquérito sobre suspeita de desvio de emendas parlamentares para financiar o filme Dark Horse e continua no caso, depois que Edson Fachin rejeitou o pedido de Flávio para afastá-lo. Na sexta-feira (2), Dino defendeu publicamente as decisões judiciais que mudaram as regras do último debate da TV Globo.

Mas as canetas trabalham nos dois sentidos. Kassio Nunes Marques, presidente do TSE e indicado ao Supremo por Bolsonaro, devolveu Deltan Dallagnol à disputa na manhã deste domingo, horas depois de um colega ligado a Alexandre de Moraes barrá-lo.


O país que elegeu um Senado de direita

O Brasil que vai às urnas em 25 de outubro é um país que já entregou à direita o Senado, a Câmara, os maiores estados e os três estados do Sul. Agora, precisa decidir se entrega também o Planalto.

A história joga a favor de Flávio: desde 1989, quem terminou o primeiro turno na frente venceu todos os segundos turnos. A margem, porém, é a mais estreita da redemocratização. A eleição é dele para perder — mas com a menor folga já vista.

No dia 25, vence o sentimento mais forte: impedir a permanência de Lula e da esquerda no poder, ou impedir o retorno da família Bolsonaro e da direita ao Planalto. A margem, apontam as análises, é mais estreita para o primeiro sentimento.

O país que elegeu um Senado de direita escolhe, em três semanas, se entrega a ela também a Presidência da República.

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Nota de responsabilidade editorial: Esta matéria foi produzida com base em dados oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em análises publicadas por veículos de imprensa como Folha de S.Paulo, GloboNews, Gazeta Brasil e Direita Online. Os resultados apresentados refletem a apuração eleitoral com 99,97% das urnas contabilizadas e podem sofrer pequenas alterações até a homologação final pelo TSE. As menções a investigações da Polícia Federal e a processos judiciais referem-se a apurações em andamento, sem que haja, até o momento, condenação definitiva dos citados. O ACM Notícias ressalta que a soberania das urnas é um princípio fundamental da democracia brasileira, e o resultado das eleições deve ser respeitado independentemente de preferências políticas. Cabe ao eleitorado, por meio do voto, definir os rumos da representação política no país.

Redação

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